quinta-feira, 11 de maio de 2017

"Estou sendo julgado por Power Point mentiroso", diz Lula a Moro

Flavio Costa, Bernardo Barbosa e Gustavo Maia
Do UOL, em Curitiba e em Brasília
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou nesta quarta-feira (10) ser o verdadeiro dono do tríplex do Guarujá em depoimento ao juiz Sergio Moro. O petista afirmou ainda que nunca se interessou pela compra do apartamento. "Eu só poderia utilizar aquele apartamento numa Quarta-feira de Cinzas com chuvas", disse Lula.
O ex-presidente começou as alegações finais a Moro relembrando sua eleição, e dizendo que "não tinha o direito de errar" enquanto era presidente. Em meio a esta memória da primeira eleição de Lula, o juiz Sergio Moro interrompeu a fala e pediu para ele ser mais breve, e que ali não caberia uma memória do governo inteiro. Então, Lula argumentou que estava sendo julgado por atos durante o governo, e que não tinha como defender-se sem falar da gestão.
Eu sou julgado pela construção de um PowerPoint mentiroso, aquilo é ilação pura.
Luiz Inácio Lula da Silva
Durante quase cinco horas, o ex-presidente prestou depoimento, na condição de réu, em uma ação penal na 13ª Vara Federal de Curitiba, sob a acusação de ter recebido propina da OAS, no âmbito do esquema de corrupção em contratos da Petrobras. Segundo a denúncia, Lula teria recebido da empreiteira um tríplex no Guarujá (SP), além do pagamento do armazenamento de bens recebidos durante sua passagem pela Presidência da República (2003-2010).

Lula deixa sede da Justiça Federal após depor a Moro

"Aquilo deve ter sido feito, com todo respeito, por alguém que desconhecendo a política, fizeram o Power Point porque já havia tese anterior de que o PT era uma organização criminosa, que Lula era chefe que montou um governo para roubar. É uma tese eminemente política", disse o petista, em referência a entrevista coletiva de procuradores da Lava Jato em que foi exibida uma apresentação em Power Point. Na ocasião, Lula foi apontado como "comandante máximo" do esquema do petrolão.
"Porque esse é o problema da mentira, depois você não tem como voltar atrás. Então, eu queria só pedir a meus acusadores que levem em conta que vocês são muito jovens, que vocês têm muito tempo pela frente. O Ministério Público, que é uma instituição que ninguém respeita como eu respeito, não foi feita pra isso. A acusação tem que ser séria, tem que ser fundamentada, ela não pode ser especulativa", declarou Lula.
"Aqui na sua sala tiveram 73 testemunhas, grande parte de acusação do Ministério Público. E nenhuma me acusou. O que aconteceu nos últimos 30 dias, doutor Moro, vai passar para a história como 'o mês Lula'", disse o petista.
"Porque foi o mês em que vocês trabalharam, sobretudo o Ministério Público, para trazer todo mundo para falar uma senha chamada Lula. O objetivo era dizer Lula. Se não dissesse Lula, não valia", continuou.
"O senhor entende que existe uma conspiração?", perguntou então Moro.
"Não, não, eu não. Eu entendo e acompanho pela imprensa que pessoas como o Léo Pinheiro estão já há algum tempo querendo fazer delação", disse o ex-presidente. "Então delatar virou na verdade quase que o alvará de soltura dessa gente. O contexto está baseado num Power Point mal feito, mentiroso da Operação Lava Jato."
"E aliás o doutor [Deltan] Dallagnol [procurador da República], que fez a apresentação, não está aqui. Deveria estar aqui, para explicar aquele famoso Power Point. Aquilo é uma caçamba onde cabe tudo. O Power Point não está julgando o Lula, pessoa física ou pessoa jurídica. Está julgando o Lula presidente da República. E isso eu quero discutir", continua o petista.

"Respeito" e queixas sobre imprensa

Lula fez queixas sobre a atuação da imprensa a Moro, que, por sua vez, disse a ele que o ex-presidente foi tratado "com respeito" durante o processo. "Senhor ex-presidente, (...) a imprensa não tem qualquer papel no julgamento desse processo. O processo vai ser julgado com base na lei (...). O senhor foi tratado com o máximo respeito", declarou o juiz da Lava Jato, que foi alvo de muitas críticas da defesa do petista.
"Eu esperava que houvesse mais respeito por um homem que deu a este país a dignidade que ele não tinha há muito tempo: dignidade do Ministério Público, da Polícia Federal e outras entidades", disse o petista ao juiz.
"Respeitei as leis como nenhum presidente respeitou", voltou a dizer Lula durante o depoimento.
Lula falou a Moro por cerca de 20 minutos na sua alegação final, nos quais foi interrompido pelo juiz com perguntas algumas vezes.

Como foi o depoimento

Primeiro, Moro abriu os trabalhos e fez os questionamentos ao réu no processo sobre o tríplex que Lula teria recebido da empreiteira OAS como propina em troca de contratos na Petrobras e sobre a ajuda da empresa na manutenção de parte do acervo presidencial de Lula.
Depois, foi a vez de o MPF (Ministério Público Federal) manifestar-se e fazer perguntas. Após a acusação, foi a vez dos advogados dos réus – além de Lula, há mais cinco denunciados no caso. Por fim, falou o ex-presidente Lula.
"Eu tenho orgulho da Petrobras", alegou Lula ao expor o crescimento da empresa durante sua gestão. "Se alguém roubou na Petrobras, que pague", disse ao abordar o assunto.
"Eu dizia para mim todo santo dia quando fui eleito que não tinha o direito de errar, porque se eu errasse a classe trabalhadora nunca mais ia eleger alguém do andar debaixo. Pelo amor de Deus, apresentem uma prova, chega de 'diz que diz'", afirmou sobre as acusações contra ele.
"Só poderia utilizar aquele apartamento tríplex em uma quarta-feira de cinzas com chuva", disse sobre o imóvel.
Moro reclamou que Lula estaria desviando muito do assunto, no que Lula retrucou: "Estou falando em dois minutos sobre o que me acusam há dois anos".
"Eu vou lhe dizer uma coisa, para ficar com a minha consciência leve: O comprometimento da Justiça e da acusação com a imprensa está levando a um impasse", disse o ex-presidente, ao dizer que agora o suposto conluio não sabe mais como voltar atrás.
"A acusação tem que ser séria, fundamentada, não pode ser especulativa", disse Lula a Moro, reclamando do trabalho do MPF. "Sou um cidadão subordinado à Lei, à Justiça e aos cidadãos. Vim aqui sem nenhum rancor".
"A imprensa não tem qualquer relação com esse julgamento, aqui é tudo baseado na lei", respondeu Moro a Lula depois das alegações do ex-presidente. "O julgamento será feito com base exclusivamente nas provas do processo", afirmou o juiz, dizendo que o que foi publicado pela imprensa não tem relação com o andamento do processo.
"Eu queria lhe avisar uma coisa: esses mesmos que me atacam hoje, se tiverem sinais de que serei absolvido, preparem-se: os ataques ao senhor vão ser muito fortes", respondeu Lula a Moro em tom de advertência. "Eu já sou muito atacado", afirmou Moro, e repetiu que o julgamento será técnico.

Entenda o caso do tríplex

O valor total da vantagem indevida seria de R$ 3,7 milhões, como contrapartida por três contratos entre a OAS e a Petrobras, segundo o MPF (Ministério Público Federal).
 Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, disse no último dia 20 de março, em depoimento ao juiz Sergio Moro que o apartamento tríplex no edifício Solaris pertence ao ex-presidente.
"O apartamento era do presidente Lula. Desde o dia em que me passaram para estudar os empreendimentos da Bancoop, já foi me dito que era do presidente Lula e sua família", respondeu o ex-presidente da OAS.
A OAS assumiu empreendimentos que a Bancoop não concluiu por dificuldades financeiras, entre eles o Solaris. A Bancoop era uma cooperativa habitacional de bancários de São Paulo, fundada na década de 1990 por petistas como Ricardo Berzoini, ex-presidente do partido.
Segundo Pinheiro, o imóvel no Guarujá nunca foi colocado à venda por estar reservado para a família de Lula.
"Nunca [o tríplex] foi colocado à venda pela OAS. Eu tinha a orientação para não colocar à venda, que pertenceria à família do presidente. Em 2009, foi dito pra mim: Essa unidade, não faça nenhuma comercialização sobre ela, ela pertence a família do presidente."
A denúncia do MPF (Ministério Público Federal) acusa Lula de ser o real dono de um apartamento tríplex no edifício Solaris, no Guarujá (SP), construído pela OAS e do qual a empresa é dona no papel.
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