sábado, 12 de dezembro de 2015

BH completa 118 anos

BH completa 118 anos e alguns bairros ainda preservam características de interior

Boa parte da história da capital passa pelo emblemático Lagoinha. No Santa Tereza, clima de interior se mistura à fama de boêmio. Ambos são considerados patrimônio da cidade

 

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

Do alto da varanda do sobrado, o comerciante aposentado Xisto de Mattos Costa, de 82 anos, tem uma vista privilegiada de Belo Horizonte. Além da Serra do Curral bem diante dos olhos, ele pode contemplar as torres da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a silhueta dos prédios do Centro, o Cemitério do Bonfim, o casario datado dos primórdios da cidade e bairros mais distantes. “Consigo ver um terço da capital”, afirma, com orgulho, o bem-humorado residente da Rua Turvo, no Bairro Lagoinha, na Região Noroeste. “Moro aqui há 64 anos. Gosto muito desse patrimônio”, conta Xisto, que descortina uma fatia generosa da história de BH, que comemora hoje 118 anos.

A alguns quilômetros dali, as amigas Juçara Ribeiro, professora aposentada, e Patrícia Borém, assistente social, caminham pelas ruas do Bairro Santa Tereza, na Região Leste, como se estivessem em casa. “Moro a minha vida inteira aqui, então me sinto muito bem. Não troco por lugar algum”, afirma Juçara, enquanto as duas passam, na saída da ginástica, em frente a um dos ícones da Praça Duque de Caxias, a Igreja de Santa Tereza e Santa Terezinha. “O bairro mais parece uma cidade do interior dentro de uma cidade grande. O clima é de aconchego, temos muitas pessoas idosas e uma arquitetura que merece ser bem preservada, pois conta muito da história da cidade”, afirma Juçara.

Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

Passear pela Lagoinha e Santa Tereza é conhecer um bom pedaço da história de BH. Segundo pesquisas, os imigrantes italianos foram os primeiros a chegar à região que deu origem ao Bairro Lagoinha – e, na sequência, vieram pessoas do interior do estado e ex-escravos de fazendas mineiras. Enquanto trabalhavam na construção da nova capital, e mesmo depois de vê-la inaugurada em 12 de dezembro de 1897, as famílias foram se estabelecendo. No início da ocupação, dois rios, hoje canalizados, se encontravam nessa área e formavam uma lagoa, vindo daí o nome que se tornou lenda na cidade, principalmente entre as décadas de 1930 e 1960, quando a zona boêmia se instalou e deu o que falar. Anos se passaram, o sistema viário mudou a paisagem e casarões perderam o viço, mas o local, resistente, guardou símbolos que ajudam a compreender melhor a trajetória da capital.

A Lagoinha é o mais emblemático e antigo dos bairros “pericentrais” de Belo Horizonte – aqueles que surgiram fora da Avenida do Contorno, na então área suburbana da cidade, conforme o projeto da comissão construtora chefiada pelo engenheiro Aarão Reis (1833-1936). Em mais de 100 anos, a região atravessou três momentos bem distintos e marcantes: familiar, zona boêmia e comercial.


Simpáticas, as amigas Juçara e Patrícia repetem a admiração pela cidade e estão certas de que, mesmo com os novos tempos, o estilo arquitetônico do Bairro Santa Tereza deve ser preservado. Na Rua Gabro, a maquiadora Maria José das Graças Abreu de Oliveira se orgulha de morar numa casa tombada pelo Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural. “Considero isso de grande valor. Nasci na Rua Hermílio Alves, minha mãe, com 105 anos, também mora no bairro”, afirma a maquiadora.


Satisfeita e ciente da relevância de proteger o patrimônio, Maria José conta uma curiosidade que faz seus olhos brilharem. “Fiquei sabendo que, neste local, funcionou a primeira igreja do bairro”.


Ramon Lisboa/EM/D.A Press - 1/10/2015
CIDADE ABERTA A capital, de acordo com a Fundação Municipal de Cultura (FMC), tem 729 bens tombados, que vão dos tempos da construção, no fim do século 19, ao estilo modernista, cujos maiores representantes estão na Pampulha, candidata, este ano, ao título de patrimônio mundial, honraria concedida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).

Depois de conhecer mais sobre os bairros Santa Tereza e Lagoinha, moradores e visitantes podem aproveitar o aniversário da cidade para expandir os horizontes. Na Praça Rui Barbosa ou Praça da Estação, vale a pena passar horas e horas em visita ao Museu de Artes e Ofícios (MAO). A praça, segundo os estudos, foi a porta de entrada de toda a matéria-prima usada na construção de BH. O primeiro relógio público da cidade foi instalado no alto da torre do prédio que, nos primórdios, abrigou a estação ferroviária.


Já na Praça da Liberdade, na Região Centro Sul, o patrimônio é o grande atrativo, com prédios dos primeiros tempos de construção ao modernismo e uso cultural. Além de ter grande visibilidade, o espaço público que abriga o Circuito Cultural, é síntese de vários estilos arquitetônicos.


Memória

Caldeirão de comportamentos

Evandro Santiago/EM.Brasil
Na década de 1930, ocorreram mudanças na paisagem do Bairro Lagoinha, na Região Noroeste de Belo Horizonte. O local se torna palco da zona boêmia, atraindo prostíbulos, bares, bebedeiras sem fim, porres homéricos – vem dessa época o nome do famoso “copo lagoinha” –, cantores com seus violões e muito folclore que atravessou o século. Contam que até a década de 1960, quando vigoraram as leis muito próprias do desejo, as meninas de sociedade nem podiam passar pela região, então marcada pela vida airada. Na Praça Vaz de Melo (foto ao lado), por exemplo, gente de família só circulava à luz do dia, pois, à noite, imperava a perdição (uma palavra bem retrô!). Mas, no fim das contas, esse caldeirão de comportamentos acabou fomentando a cultura da cidade e deixando um turbilhão de casos e lembranças.
Para se ter a dimensão do lugar e entender a história, vale muito caminhar pela Rua Itapecerica, que já teve mais glamour como polo de antiquários e venda de móveis antigos, mas ainda pode ser considerada um dos ícones da região. Andando pela via pública, veem-se vestígios da passagem dos italianos pelo bairro. Para homenagear o país natal, em 1930 foi construída, com projeto dos arquitetos Otaviano Lapertosa e João Abramo, uma imponente residência, que ficou conhecida como Casa da Loba por ostentar o animal bem no alto da fachada. Em 1996, foi criada na Lagoinha, pela Prefeitura de Belo Horizonte, a Área de Diretrizes Especiais (ADE) de Proteção do Patrimônio Cultural e Desenvolvimento Econômico, e, na década seguinte, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural Municipal fez tombamentos de imóveis.

Celeiro musical
Pedro Mota/Estado de Minas - 2/12/05
Considerado um dos bairros mais tradicionais e charmosos de Belo Horizonte, Santa Tereza ganhou esse nome em 1928, em homenagem à igreja. Considerado reduto boêmio da cidade e lugar preferido de artistas, que encontravam na noite inspiração para compor, o local ficou conhecido graças às casas de serestas e bares. Tiveram passagem pelas mesas do Bar do Bolão, que serve o suculento mexido chamado Rochedão, os integrantes do Clube da Esquina e as bandas Skank e Sepultura. Além da seresta, o carnaval representa grande atrativo e, nos últimos três anos, os bloquinhos fazem a festa do reinado de Momo, sem falar, claro, na tradicional Banda Santa, que arrasta multidões uma semana antes da folia.



 
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